A FOOLISH MISTAKE。

「Yet another average mess」

[Un]Practical

Minha vida pode ser resumida como um poço de sofrimento no qual eu deliberadamente entrei quando não tinha a mínima ideia do que estava fazendo e agora não sei muito bem como sair. Ou seja, eu sou como você e todas as outras pessoas, apenas um pouquinho mais atrapalhada.

Um dos meus maiores sofrimentos se chama disfunção executiva, que pode ser definida como “uma variedade de dificuldades cognitivas, emocionais e comportamentais” que podem ocorrer por conta de diversos problemas, mas essa nomenclatura costuma ser mais usada em casos de lesões cerebrais.

De qualquer forma, pessoas com déficit de atenção, autismo e até mesmo depressão, por exemplo, vivenciam essas dificuldades, mostrando que a disfunção executiva não está restrita apenas a lesões cerebrais devido a acidentes ou coisas assim.

A função executiva é um grupo de processos mentais que engloba uma variedade de habilidades, como a memória, planejamento, atenção, entre outros. Uma pessoa com disfunção cognitiva, portanto, sofre dificuldades nesses processos mentais.

De acordo com o Healthline, os sintomas da disfunção cognitiva são:

  • Perder papeis e documentos importantes, tarefas de casa ou materiais escolares;
  • Dificuldade na gestão do tempo;
  • Dificuldade em organizar agendas (acho esse sintoma sensacional porque é algo que as pessoas simplesmente não compreendem, falarei mais sobre adiante);
  • Perder itens pessoais com frequência;
  • Dificuldade para lidar com frustrações e contratempos;
  • Problemas para relembrar de coisas ou seguir instruções complexas;
  • Falta de capacidade de automonitorar emoções e comportamentos.
O que diabos causa a minha disfunção eu realmente não sei. São tantos diagnósticos possíveis e quanto mais eu estudo sobre transtorno bipolar, mais eu me convenço que meu diagnóstico não está correto. Entretanto, alguma coisa está errada, porque pessoas mentalmente saudáveis supostamente levam vidas funcionais e eu diria que a minha é apenas uns 50% funcional.

Por que? Porque eu não consigo fazer nada.

Eu vejo as horas passarem e, quando percebo, eu não fiz absolutamente nada além de respirar e pensar na morte da bezerra. Minha cabeça parece constituir um mundo a parte no qual eu realmente resido, enquanto meu corpo tenta fazer a intermediação entre esse mundo particular e o mundo exterior, mas falha miseravelmente porque eu simplesmente não consigo fazer nada.

Levantar a bunda da cadeira pra fazer qualquer coisa é um sacrifício. Não porque não quero, mas porque eu não lembro o que eu quero fazer. Eu não lembro o que eu preciso fazer e, consequentemente, não consigo me organizar e executar as tarefas necessárias.

Tem dias que eu esqueço de ir dormir. Sempre que digo isso pra alguém, a pessoa pergunta assustada: “como alguém pode esquecer de ir dormir?”. Olha, eu também não sei, eu só sei que acontece. Eu estou tranquila, feliz e faceira, fazendo absolutamente nada além de respirar e pensar na morte da bezerra, como dito anteriormente, e o sono bate. Penso comigo mesma: “uau, preciso dormir”. No mesmo instante, eu já não lembro mais que estou com sono e que esse pensamento passou pela minha cabeça. Quando vejo, faz duas horas que pensei “uau, preciso dormir”. Não é raro meu namorado virar pra mim e perguntar “ei, você não precisava ir ao banheiro?” cerca de uma hora após eu ter dito “nossa, preciso ir ao banheiro”.

Queria pelo menos dizer que tenho um problema sério de ficar scrollando nas redes sociais e, portanto, o tempo passa e nem vejo. Porém, de acordo com o próprio Instagram, eu passo uma média de 20 minutos apenas por dia no aplicativo. Acredito que o mesmo vale para o Twitter e outras redes sociais, mas não tenho como comprovar pois nunca baixei um daqueles aplicativos de bem-estar digital, até porque eu esqueço de fazer isso, assim como esqueço de fazer basicamente tudo na minha vida.

E assim, meses passam e eu nunca terminei de ler um livro que ganhei em outubro do ano passado. Eu nunca terminei dezenas de séries, nunca aprendi um novo hobby. Um teclado que ganhei em 2009 nem sabe direito o que é sentir dedos pressionando suas teclas. Não porque eu desisti porque achei difícil. Não porque recebi críticas negativas e resolvi parar. Não porque criei expectativas e percebi que ia demorar muito para chegar lá. Simplesmente porque eu esqueço que quero aprender a tocar.

Há quem diga que, quando se quer algo, se dá um jeito. Eu, pessoalmente falando, acho essa frase um absurdo. Primeiro porque ela acaba com desculpas esfarrapadas em um mundo onde dependemos destas desculpas para conviver pacificamente em sociedade. Segundo porque ela não leva em conta as limitações pessoais de cada um, incluindo questões que estão fora do controle das pessoas.

Quando falo sobre meus problemas, a maior parte das pessoas apresenta uma bela de uma solução fácil e rápida, conhecida como o salvador da organização: anotar! Pois bem, lembra ali na lista de sintomas, que está escrito que há dificuldade em organizar agendas? Então, pra quem sofre com disfunção executiva, anotar e não anotar é basicamente a mesma coisa.

Eu tenho uns 3 aplicativos no celular de listas de afazeres. De nada adianta eles me mandarem notificações, porque a partir do momento que eu abro o aplicativo e ela some do meu painel de notificações, se eu fecho o aplicativo por um instante sequer, esqueça: eu não vejo mais nem a sombra da lista. Já tentei me organizar com planners e todas essas coisinhas fofinhas e “revolucionárias” (como diria a Helen, um planner é só a agendinha do tempo das nossas avós, apenas revamped), mas não adianta. Eu esqueço que o planner existe, na hora de anotar as coisas para fazer eu esqueço o que tenho que anotar, quando completo uma tarefa eu esqueço de anotar que eu terminei... Ou seja: é uma solução fácil e prática? É. Mas pra quem? Não pra mim.

Confesso que fico impressionada toda vez que termino um texto, porque parece ser uma das únicas atividades que consigo começar e, algumas vezes, levar até o final. Entretanto, meus textos geralmente surgem de uma necessidade de botar pra fora aquilo que estou sentindo ou pensando, mas a verdade é que preciso começar o texto no exato momento em que a “inspiração” vem. Caso contrário, adeus texto. Você nunca será escrito. Nem mesmo a ideia central vai sair. Eu esqueço.

Eu simplesmente esqueço.

E quando eu finalmente consigo lembrar e me proponho a fazer, eu esqueço os passos para completar a tarefa. Sempre sobra uma ou duas louças na mesa, porque eu esqueci de lavá-las. Sempre tenho que fazer alguma coisa de última hora porque eu esqueci completamente que aquilo deveria ser feito. Eu começo a me arrumar 3 horas antes da hora de sair de casa, para chegar no momento de sair e alguém me lembrar que esqueci algo crucial e, enfim, me atrasar porque precisei fazer aquilo antes de sair.

Como dito anteriormente, minha vida pode ser resumida como um poço de sofrimentos, porque não tem (quase) nada que eu consiga fazer sem me esquecer de algo e me estressar ao ponto de gritar “eu não aguento mais”.

Sabe aquele ditado “só não esquece a cabeça porque está grudada”? Tem dias que, sinceramente, eu preferia que ela não estivesse.

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